Especial 50 Anos EFA

Apresentação: EFA 50 anos - Encantamento Pela Educação

           

            Escrever uma Apresentação da Revista comemorativa aos 50 anos de atuação da EFA- Centro de Educação Básica Francisco de Assis, uma das instituições mantidas da FIDENE e parceira da UNIJUI, se constitui de um sentido muito significativo para mim. Vivi para contar a história do nascimento aos 50 anos dessa escola com a particularidade pedagógica, que me permito tomar como referência, por ser a área de minha formação e, portanto, a que me faculta esse olhar. As relações educativas que animavam a vida cotidiana da Escola pela dinâmica das práticas entre professores e alunos e entre escola e comunidade (pais, outros familiares, estudantes do ensino superior) encantaram desde os seus primeiros professores e alunos e despertaram uma atenção vigilante e entusiasmada, em especial das famílias, e inspiraram tantas outras escolas buscarem, também, novos modos de organização e condução de suas práticas educativas. Assim como também alguns cursos de licenciatura da UNIJUI, criados e/ou revitalizados nos anos 70 e 80 tiveram como uma das fontes de inspiração o que acontecera no IPPI, na Escolinha de Arte e depois com as propostas pedagógicas da Escola Francisco de Assis da educação pré-escolar ao ensino médio.  Por quê? Explico: os professores do ensino superior da FAFI/Unijui ou também atuavam na Escola ou tinham seus filhos (as) como estudantes nessa Escola e sua dedicação e participação na discussão e definição dos caminhos pedagógicos se faziam de contínuo. O líder/ fundador do IPPI, Professor Mario O. Marques acompanhou o desabrochar dessa experiência educativa e seu desenvolvimento até seus últimos dias de vida (2002) com emoção, inteligência e sabedoria investigativa e sistematizadora. Participou ativamente, valorizou cada avanço e acolheu com entusiasmo as propostas feitas pela EFA, como, por exemplo, a ideia de transformar os Boletins Informativos em uma Revista que integrasse experiências de outras escolas. E assim nasceu a Revista Espaços da Escola, entre outras iniciativas relatadas no corpo da Revista destinatária desta Apresentação. Ele ensinou, aprendeu com essa sua inserção (e seus permanentes estudos e em outras práticas educativas) e escreveu:

                 Ponto de partida e ponto de chegada da Pedagogia são as relações educativas em que se defrontam educadores e educandos na imediatez de práticas imediatas/determinadas. São muitos os espaços e tempos, as condições, em que se dão as práticas educativas diretas, imediatas: desde o grupo familiar, os grupos de iguais que perpassam toda a organização social (...) nas instituições em que convivem... ( 1990, p 128).

                 Educação entendida como admiração, encantamento e aposta nas possibilidades humanas é premissa, portanto, que tem orientado o percurso da EFA no afã da educação responsável e solidária, nesses seus 50 anos de história.  A ideia de uma escola voltada para a educação de crianças já constava dos Documentos Regulatório da FAFI desde o início. A marca profunda e enriquecedora que se originou da filosofia Cor ad Cor no ensino superior fluiu para a nossa Escola Francisco de Assis. Então, sua trajetória constituinte ocorre valorizando a participação, o diálogo, o outro como necessário ao permanente renovar, reencantando os espaços e revitalizando os processos educativos. Como primeira “pré-escola” (IPPI) de Ijuí deu testemunho de que criança precisa de cuidado e educação, também formal, desde seus primeiros anos de idade/infância.  

             No decorrer dessas cinco décadas, marcas apontam novos horizontes de conhecimentos e aguçam a crença nos sonhos e projetos de crianças e jovens, porque seus professores sonham e se reencantam continuamente.

            As colunas, tópicos específicos, depoimentos, textos que teorizam e explicitam visões de educadores com menos tempo na Escola, de outros que foram protagonistas em momentos anteriores, como constituintes dos desing no processo evolutivo da história pedagógica e adminstrativa ou gestionária da Escola constam das dezenas de páginas que estão à espera dos leitores que desejarem se encantar também com “O projeto EFA: o encantamento pela educação”. Nela o leitor pode constatar que, em vários passos de sua trajetória a EFA foi e é referência nos processos de incentivo a leitura, à produção intelectual de seus professores e estudantes de todas as idades; na investigação e publicização através de feiras de ciências, de criatividade, de livros; na igualdade de jogos e esportes para todos (idade, gênero com inclusão de qualquer dos diferentes) como forma lúdica de conhecer, aprender e conviver respeitosamente com os diversos segmentos ligados à instituição escolar.  E, mais, artes visuais, teatro, poesia, música como conteúdos relevantes na formação humana, todos analisados, praticados e, com reflexão, postos à crítica pública de familiares e também de professores e estudantes de outras escolas e níveis de ensino.

            Eis, retratada nessa Revista, a Escola que tive o privilégio de presenciar seu nascimento e seu desenvolvimento até então: 50 anos, marcando várias gerações e por elas marcada. Sou grata por ter participado desse projeto e, principalmente, por vê-lo fortalecido no seu tempo.

            Parabéns EFA pela sua rica história. Aplausos aos que te conceberam, gestaram e continuam acreditando reconstruindo concepção, aprimorando a gestação e acolhendo os novos desafios que a História propõe aos que também a constroem.

            Meu agradecimento repleto de emoções pela oportunidade a mim oferecida para produzir a apresentação desse periódico referente a uma instituição educativa, cujo pertencimento sinto profundamente, e por isso atravessa a minha história de educadora/pedagoga, mãe e avó.

            Na escrita que ora concluo a reflexão/rememoração dessa história e das gerações que a percorrem na Escola fizeram emergir uma parte de minha identidade atual: sou bisavó pedagógica, sem dúvida, neste ano de 2017.

Marques, M.O. Pedagogia a Ciência do Educador - 1.ed. Ijui: Editora Unijuí, 1990

   Professora Eronita Silva Barcelos.


EFA, valorizando suas raízes,impulsionando seu futuro

Em 2018, ano do cinquentenário da EFA, sinto-me muito lisonjeada e orgulhosa por ser a diretora da escola, em seu jubileu de ouro. Este sentimento se dá, por ser a EFA responsável pela minha constituição como profissional e, pelo encantamento no ser professora com a crença de que a educação é um caminho para a construção de um mundo melhor, com possibilidades várias na contribuição à formação de seres humanos sensíveis, humanizados e solidários.

São 50 anos de trabalho na comunidade de Ijuí e região fazendo educação, com a certeza de que sua missão é muito mais que ser escola repassadora de conhecimentos construídos historicamente pela humanidade. É ser um local de exercício diário de reflexão, de construção, de participação, de cumplicidade e de comprometimento com a formação das crianças, jovens e adultos. Escola que sempre primou pela valorização e o respeito ao potencial humano, à individualidade e à coletividade, possibilita o diálogo diverso, promove o planejamento participativo e que tem a pesquisa como princípio educativo. Uma escola que trilha seu caminho de participação solidária junto aos pais, professores, funcionários e colaboradores.

Quando me pergunto sobre o que nos espera no futuro e, mais especificamente nos próximos 50 anos? Sustenta-me a premissa de que alguns especialistas em educação têm anunciado a escola de hoje e do futuro sob forte influência tecnológica, com metodologias visando ao uso das mídias, tanto em dispositivos móveis quanto em rede de computadores. Com acesso ao mundo “sem fronteira” do campo virtual, a geração de alunos da atualidade nasce imersa nas múltiplas possibilidades virtuais. Assim, o questionamento é qual o papel da escola e do professor neste contexto?

 Na EFA, os professores definem o que é preciso ensinar, planejam as aulas e os projetos de modo que os alunos tomem para si e não vejam a proposta pedagógica como mera tarefa a ser realizada para fins de uma cobrança avaliativa. Os professores contribuem na formação plena das crianças e jovens, assim como são eles que têm a tarefa em conduzi-los a se organizarem para o conhecimento, cuidam da sua aprendizagem, procurando encaminhá-los para a autonomia no pensar e no agir. Em seu livro Professor do futuro e reconstrução do conhecimento Demo (2004, p. 28), afirma:

"a escola é o mais importante caminho para a construção de conhecimento, é nela, que o nosso cérebro é estimulado a trabalhar com o conhecimento que possuímos anteriormente de frequentarmos uma instituição escolar, porém, esse processo somente obterá êxito se o aluno realmente compreender o tema e a sua importância, de modo que ele possa tornar-se não apenas um sujeito integrante, mas também interativo.

Acredito que a escola dos próximos anos não se restringe como espaço territorial de aprendizagem, mas, sobretudo, é a estrutura que possibilita a inserção de crianças e adolescentes ao meio social. Por meio dela, torna-se possível desde muito cedo, que as crianças estabeleçam relações com outras crianças, desenvolvendo noções de amizade, justiça e respeito às pessoas externas ao grupo familiar e à sociedade da qual faz parte.

A proposta EFA, ao longo de seus 50 anos, sempre foi de estar distante do modelo tradicional de ensino, buscando metodologias que valorizam a autonomia e a capacidade criativa dos alunos e que os toma como sujeitos deste processo. Sendo assim, os próximos anos, e não só o hoje e o amanhã, espera-se que se constituam pela garantia na contribuição na formação de cidadãos capazes de interagir com as diferentes tecnologias incorporadas no processo de educação para identificar os problemas, construir a pesquisa, tomar decisões e se comunicar com eficácia, bem como em construir e viver relações humanas de convívio com respeito às diferenças em uma edificação sólida de solidariedade com o outro.

 

Maria do Carmo Pilissão - Diretora da EFA


FIDENE: Mantenedora da EFA

CÁTIA MARIA NEHRING Presidente da FIDENE e Reitora da UNIJUÍ

Conforme Nelson Mandala, a educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo. Foi com esta aposta que nasceu a FIDENE, mantenedora da EFA.

           A história desta Instituição possui 60 anos de trajetória e tem origem no sonho de uma comunidade de melhorar a condição de sua gente a partir da educação. A Mantenedora FIDENE foi criada formalmente em 1969, um ano depois da EFA (à época Instituto Psicopedagógico Infantil), que já era uma das mantidas da Sociedade Literária São Boaventura, entidade religiosa vinculada aos Frades Menores Capuchinhos, responsável pelo impulso à educação superior no Noroeste Gaúcho na década de cinquenta. Já naquela época, a FAFI, a partir de suas faculdades de Filosofia e Pedagogia implantadas em 1957, juntamente com o Museu Antropológico Diretor Pestana, criado em 1961, tinham no horizonte serem referenciais de construção de ações educativas, científicas, culturais e tecnológicas que pudessem contribuir para o desenvolvimento região.

            Com o passar dos anos, houve a ascensão da tão esperada Universidade, a UNIJUÍ, em 1985, e em 2001 a criação da Rádio Educativa UNIJUÍ FM, completando o quadro de mantidas que a FIDENE possui atualmente: a UNIJUÍ, a EFA, o Museu e a Rádio. Todas engajadas e tendo como princípio fundante a atuação comunitária, balizada na preocupação com o desenvolvimento deste território a partir da educação.

           Nessa caminhada, embora todas as mantidas possuam uma sinergia natural, destacamos a estreita relação entre a UNIJUÍ e a EFA, o que aprimora a Escola na construção do seu diferencial de qualidade. Esta relação se materializa na possibilidade de aprofundamento da aprendizagem dos alunos, na utilização da excelente infraestrutura disponível, tanto física quanto tecnológica, no apoio à qualificação dos professores e no reforço ao projeto pedagógico da Escola.

          A EFA certamente é um grande orgulho para a FIDENE, pois desde a educação infantil até o ensino médio e técnico contribui para a formação de crianças e adolescentes em cidadãos críticos e participativos, motivados a avançar em sua formação e em buscar uma atuação qualificada nos diversos setores da sociedade.

        Parabéns à EFA pelos 50 anos de história!

 


Uma história de 36 anos vivendo a EFA!

 

               Escrever é preciso já dizia Mario Osorio Marques. Por isso, me encorajo a deixar aqui meu testemunho. Ingressei na EFA, em 1981, a convite da diretora Jane Bardini. Havia me formado há um mês e há um mês havia chegado a Ijuí. Tudo novo: cidade, estado civil, emprego, aliás, meu primeiro emprego, expectativas de tudo. Iniciei minha atividade como professora na educação infantil, época do jardim de infância.  Logo percebi o tamanho do coração da FIDENE. Me apaixonei! Havia algo desde o início e que até hoje mexe com minhas emoções. É um emprego/lugar/ambiente de fomento as singularidades, as expressões mais singelas, a partilha, aos poderes democratizados, o tempo de aprender a falar e a escuta sensível, a ousadia da palavra, do gesto, da ação e do olhar.

           Na EFA sempre procurei significar cada dia da rotina, pelo acolhimento, amor, responsabilidade, referência e respeito a minha profissão e as minhas escolhas. Significar pelo exercício da dignidade, do bem viver, do zelo a função da escola, ao tempo de cada uma das pessoas que fazem a escola: os colegas, os estudantes, os pais, os funcionários, os colaboradores, a Presidência da mantenedora e da Direção Executiva. O Anexo I, prédio que representou a Escolinha de Artes, a Escolinha da FIDENE e o início da Escola Francisco de Assis. Como professora, incentivada pela diretora da época, Eronita Barcelos, organizei livro de música e de teatro. Época de efervescência na escola: seminários, cursos de formação, viagens de estudos, produções individuais e coletivas, informativos, mostras, feiras!!!! Foi no Anexo que tive a oportunidade, pelo voto direto, de ser diretora. Aprendizagens múltiplas construídas pelo diálogo, pelos conflitos, pelas argumentações, pelas conquistas e frustações.  EFA na Sede Acadêmica foi outro grande movimento. Novo ambiente, novos desafios. Esta organização foi determinante para o fortalecimento e consolidação do projeto EFA. Ao mesmo tempo em que me fortalecia do lugar de professora, assumia outros lugares como o da coordenação pedagógica e de viver novamente a experiência de direção.

         A responsabilidade em estar à frente de um processo educativo, ao mesmo tempo, que desafia também encanta. Por ser uma escola com experiência singular e irreprodutível, não se podem prever inteiramente os desdobramentos desses processos, mesmo que se esteja atenta a cada gesto, sinal, comunicação, momento e situação. Em muitos aspectos, entra a intuição, a experiência e a sensibilidade na tomada de decisão. Tenho aprendido que numa gestão é fundamental conhecer os aspectos que a movem, como também, é necessária a mobilização de talentos e de energia humana. Experiências positivas e promissoras se fazem com sinergia de grupo como elemento cultural que, por seus processos, educa e forma os sujeitos que dela participam.

           Sou a professora mais antiga. Destes 50 anos de EFA, 36 anos transbordo a filosofia Fideniana. A FIDENE é parte da minha história de vida, o sentimento de pertencimento a um projeto humano, que aposta no diálogo, no entendimento, no cuidado de si e do outro. Sinto-me privilegiada por ter construído minha carreira na EFA e na UNIJUI e ter podido contribuir na formação de tantas crianças, jovens e adultos. Entendo que neste percurso muitas mãos, olhares, falas, abraços, risos e choros se constituíram a base do que sou. E reconhecer que parte de mim, são as pessoas que me fazem sentir viva e dar sentido ao meu fazer cotidiano. Com isso, encerro meu tempo na instituição reconhecendo que a FIDENE – EFA e UNIJUI- me permitiram crescer e a ter a convicção que é possível educar com amorosidade, empenho, seriedade e comprometimento. Obrigada e Gratidão!  Levarei para sempre nosso lema: “Cor ad cor loquit”: o coração fala ao coração.

Rosane Nunes Becker Mestre em Educação- Ex Diretora da EFA


O projeto EFA: Encantamento pela Educação

 Depois dos 50

[...] depois dos 50 continuamos não sabendo o caminho certo

Mas descobrimos o valor da parceria com quem andamos

Não queremos mais chegar, basta andar.

Sabemos os atalhos, e escolhemos o mais longo.

Depois do 50 o horizonte encurta,

As paisagens se alargam,

Depois dos 50 estamos encharcados de mundo. [...]

Paulo Evaldo Feinsterseifer- Poesia XI alunos mostram o que fazem

 

          Cinquenta anos! Cinco décadas de ensino. Uma trajetória que teve seus altos e baixos, oscilando entre defesas de sua permanência ou de seu fechamento. Os argumentos, o trabalho realizado com seriedade, a conquista do projeto pela comunidade local e regional, a beleza na rotina, as mostras de produções artísticas, científicas e culturais, a dimensão ética e o viver em estado de poesia – olhando para as coisas e as pessoas, sempre que possível, com olhos de acolhimento  - foi o que determinou a harmonia entre os sustos e os amansos.

         As pessoas que ao longo dos anos foram dando liga no encantamento. O ver as ideias germinando com intensidade, com profundeza, com amorosidade, com determinação e com vibração deram a forma e a beleza do que hoje se chama EFA: uma cena, uma memória, uma narrativa, um rosto, uma voz, uma melodia, uma produção artística, um estudo, uma viagem, uma poesia, um passeio, uma criança brincando, muitos sorrisos, muitas risadas, muitas conversas e muito silêncio. Silêncio para apreciar a escuta do outro, silêncio para o olhar atento as diferentes paisagens, o silêncio para a autorreflexão, o silêncio para as produções.  Porque tudo o que é encantador, de alguma forma, surpreende. Surpreende porque o não sabido, o não conhecido, o não apreciado ao ser descoberto passa a causar o bem estar, a satisfação, a autoestima positiva e o cultivo das boas trocas entre as pessoas.

“Cor ad cor loquit”: o coração fala ao coração

        São Francisco legou a seus filhos o amor a todas as coisas, o desejo de descer ao nível delas para compreendê-las e, como qualidade de inteligência e intuição, esse olhar simples e direto a realidade presente. Simpatizar com os seres para compreendê-los, acercar-se deles com amor e respeito, cultivar esse sentido fecundo de admiração que se esquece para assemelhar-se e entender. Ensinar é dar de si, é permitir que sua alma transborde para a alma de outrem. O mestre retirando do seu coração para o coração do discípulo os tesouros que o homem bem guardou com a paciência das coisas antigas.

(Mario Osorio Marques, 1957. Fragmento do discurso em solenidade de 16 de março dos propósitos da faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijui)

       As aprendizagens relevantes para a vida são um convite aberto para que a beleza do aprender se reconheça na autenticidade, nas autorias, na felicidade das conquistas, nas coisas frívolas, nos esforços para a superação das limitações. Assim vem se delineando a Escola, sua história, sua gente. Os tempos de ontem e de hoje, o sentido do viver em coletividade. O movimento interior do gosto do aprender e de estar com o(s) outro(s). O encantamento que não vem de fora, que já está na gente, mas que geralmente está desacordado. Como escreveu Cristopher Zandoná Schneider, ex-aluno da EFA, na Poesia “Beleza Esquecida”:

Vinho, sabores e aromas:

Perigosamente apaixonado e celebrando a vida na tarde lenta

De cores barrocas e quase impossíveis,

Volúpia das camadas mais fundas e esquecidas de mim,

Lembrança de um tempo ido e infinitamente simples e belo.

(A beleza e simplicidade que aos olhos passavam despercebidas e nulas).

 

(Fragmento do Poema de Cristopher, publicado originalmente pelo SESC-DF em Antologia Poética referente ao Prêmio Carlos Drummond de Andrade 2011. Poesia que integra o Livro de Poesias XI: alunos mostram o que fazem, em homenagem Póstuma).

         A escola e a família!!!! Quantas famílias, quantas destas que viveram e vivem a EFA desde a educação infantil. A experiência compartilhada pela confiança e apoio a educação que resgata o sentido do humano. A disposição para o diálogo, para a relação positiva com as diferenças, para a tolerância e para o respeito mútuo. As crianças e jovens aprendendo a serem produtores de conhecimento: criam teorias, experimentam, justificam, tentam convencer seus colegas ou são convencidos por eles, buscam novas informações e as relacionam com as que tinham antes, constroem novas teorias, e assim sucessivamente. Uma das marcas fortes da EFA é sua história franciscana, sua raiz pela arte, seu cultivo da pesquisa e da investigação, seu caráter laico de ensinar.

        A EFA vem de uma tradição de escolinha, ainda do tempo em que seu trabalho se engajava nos ideias de Augusto Rodrigues com a Escolinha de Arte da FIDENE. Quanta simplicidade, quanto espaço para correr e brincar, os peixes, a tartaruga que a vó Herta cuidava. E o cházinho então!!! Não dá pra esquecer o doce aroma do chá movido aos olhares atentos e carinhosos da vó. O Anexo, nosso espaço de tantos anos, que mesmo nas dificuldades, havia uma grande relação de afeto e apego por tudo o que representava. A praça idealizada pelo professor de Educação Física Wilton Trapp e as Festas de Jogos do professor Paulo Carlan da UNIJUI. A gigantesca Biblioteca Sonho Infantil e depois Mário Quintana. Os Salões dos Espelhos!!! As salas de estudos dos grupos!! (Rosane N. Becker)

           Dizem que o encantamento não é uma coisa que a gente busca para fazer isto ou aquilo, para chegar lá, ou ali. Que o encantamento vem com o que inspira a vida da gente. Se há inspiração no trabalho, há também na vida. Mario Quintana disse que “quem inventa fica mais perto da realidade”. E foi sábio na afirmativa. A EFA sempre se pautou por um grupo de professores ousados que gostavam e gostam de inventar. Dá muito trabalho ser professor(a) desta Escola. E é assim que o projeto vem sendo lapidado. Muitos acertos, alguns tropeços, mas muita, muita ousadia da busca de uma educação mais próxima do momento complexo em que se vive.

            O Professor Mathias Junior Ribeiro foi daqueles que começou como um oficineiro de capoeira, tornou-se coordenador do projeto na Escola e foi assim, pela conquista das crianças e jovens que adentrou o universo da sala de aula da Educação Física, trabalhando com capoeira. Como tantas boas experiências, passou. Mas, ficou o encantamento e as aprendizagens das lembranças de ambas as partes. Mathias dizia:

      Quando penso em EFA, vem um sentimento maravilhoso, não era simplesmente sair de Panambi, pegar a estrada e ir dar aula de Capoeira em Ijuí, era sim planejar com gosto uma aula diferente, uma aula criativa que motivasse os alunos, era ir cantando no ônibus uma nova melodia, era chegar e receber um abraço carinhoso dos guardas, funcionários e professores, lembro-me das crianças me olhando, e da velocidade que vinham correndo em minha direção, da amizade com os pais e familiares. Foram anos de muito aprendizado e ensinamentos, sinto-me orgulhoso de ter contribuído para com a instituição e ao mesmo tempo eternamente grato!

         O desenvolvimento de tal postura demanda grande esforço pedagógico e grande sensibilidade, assim como o estímulo permanente ao protagonismo dos estudantes, e os professores que tem aí um papel fundamental: definem o que é preciso ensinar, planejam as aulas e os projetos de modo que os alunos tomem-nas para si e não as vejam como meras tarefas a serem feitas para uma cobrança avaliativa. Os professores contribuem na formação plena das crianças e jovens, assim como são eles que têm a tarefa de conduzi-los a se organizarem para aprender, cuidam da sua aprendizagem e procuram encaminha-los para a autonomia do pensar e do agir.

          Até quem já passou pela EFA, não consegue abandoná-la. A professora Lídia Inês Allebrandt é exemplo disso.  Segundo ela, manter vínculos com a escola e seus professores, é um diálogo que a faz pensar e a desafiar.

         As professoras e as crianças colaboram no programa de Rádio, o Roda Gigante, com suas pesquisas, suas histórias e suas perguntas e eu colaboro com a escola participando de suas formações. É como nos ensina Freire quem ensina aprende e quem aprende ensina. Sou grata aos professores que integraram a EFA pelo acolhimento quando decidi ser professora e iniciava estudos acadêmicos na graduação em Letras. Sou igualmente agradecida por oportunizarem formações e experiências que possibilitaram pensar e entender a infância e a interagir com as crianças na educação Infantil. Na EFA tive espaço e tempo para propor ideias, como por exemplo: realizar feira de livros, instalar uma biblioteca e lançar a coleção de livros de poesias. Não fiz isso sozinha, fizemos no coletivo. Experiências que deixaram marcar na minha formação e até hoje contribuem para o exercício da docência no ensino superior. Obrigada, EFA, pois sinto-me novamente acolhida (Atua no DHE Departamento de Humanidades e Educação da UNIJUI, é professora do curso de Pedagogia e coordena o PIBIB- programa institucional de bolsas de Iniciação a Docência).

          EFA um projeto que tem como foco o trabalho como o conhecimento, a cooperação e a autonomia. Valores que perpassam as ações pedagógicas e educacionais, e se concretizam na rotina. O espírito coletivo facilita a gestão do cotidiano e, as normas que regulam o convívio são poucas, mas úteis, pois foram criadas visando a um ambiente adequado para a aprendizagem e a formação geral dos estudantes. Como afirma a Diretora da Escola, professora Maria do Carmo Pilissão, nos seus 50 anos de história, a EFA vai além da tarefa de cumprir seu papel de instituição educativa e formadora na sociedade. Ela ocupa o lugar, por excelência, da mediação do conhecimento sistemático e científico elaborado ao longo dos tempos pelo conjunto de sujeitos sociais, sem esquecer o sujeito primeiro que habita neste ambiente, nossa escola: a criança e o jovem. A valorização e o respeito pelo potencial humano, a individualidade e a coletividade que possibilita o diálogo diverso, que promove o planejamento participativo e que tem a pesquisa como princípio educativo. Uma escola que caminha pelo trabalho coeso e solidário com os pais, com os professores, com os funcionários, com os colaboradores. Estes são os atributos que me fazem ser diariamente desafiada e encantada por esta Escola.