O projeto EFA: Encantamento pela Educação

 Depois dos 50

[...] depois dos 50 continuamos não sabendo o caminho certo

Mas descobrimos o valor da parceria com quem andamos

Não queremos mais chegar, basta andar.

Sabemos os atalhos, e escolhemos o mais longo.

Depois do 50 o horizonte encurta,

As paisagens se alargam,

Depois dos 50 estamos encharcados de mundo. [...]

Paulo Evaldo Feinsterseifer- Poesia XI alunos mostram o que fazem

 

          Cinquenta anos! Cinco décadas de ensino. Uma trajetória que teve seus altos e baixos, oscilando entre defesas de sua permanência ou de seu fechamento. Os argumentos, o trabalho realizado com seriedade, a conquista do projeto pela comunidade local e regional, a beleza na rotina, as mostras de produções artísticas, científicas e culturais, a dimensão ética e o viver em estado de poesia – olhando para as coisas e as pessoas, sempre que possível, com olhos de acolhimento  - foi o que determinou a harmonia entre os sustos e os amansos.

         As pessoas que ao longo dos anos foram dando liga no encantamento. O ver as ideias germinando com intensidade, com profundeza, com amorosidade, com determinação e com vibração deram a forma e a beleza do que hoje se chama EFA: uma cena, uma memória, uma narrativa, um rosto, uma voz, uma melodia, uma produção artística, um estudo, uma viagem, uma poesia, um passeio, uma criança brincando, muitos sorrisos, muitas risadas, muitas conversas e muito silêncio. Silêncio para apreciar a escuta do outro, silêncio para o olhar atento as diferentes paisagens, o silêncio para a autorreflexão, o silêncio para as produções.  Porque tudo o que é encantador, de alguma forma, surpreende. Surpreende porque o não sabido, o não conhecido, o não apreciado ao ser descoberto passa a causar o bem estar, a satisfação, a autoestima positiva e o cultivo das boas trocas entre as pessoas.

“Cor ad cor loquit”: o coração fala ao coração

        São Francisco legou a seus filhos o amor a todas as coisas, o desejo de descer ao nível delas para compreendê-las e, como qualidade de inteligência e intuição, esse olhar simples e direto a realidade presente. Simpatizar com os seres para compreendê-los, acercar-se deles com amor e respeito, cultivar esse sentido fecundo de admiração que se esquece para assemelhar-se e entender. Ensinar é dar de si, é permitir que sua alma transborde para a alma de outrem. O mestre retirando do seu coração para o coração do discípulo os tesouros que o homem bem guardou com a paciência das coisas antigas.

(Mario Osorio Marques, 1957. Fragmento do discurso em solenidade de 16 de março dos propósitos da faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ijui)

       As aprendizagens relevantes para a vida são um convite aberto para que a beleza do aprender se reconheça na autenticidade, nas autorias, na felicidade das conquistas, nas coisas frívolas, nos esforços para a superação das limitações. Assim vem se delineando a Escola, sua história, sua gente. Os tempos de ontem e de hoje, o sentido do viver em coletividade. O movimento interior do gosto do aprender e de estar com o(s) outro(s). O encantamento que não vem de fora, que já está na gente, mas que geralmente está desacordado. Como escreveu Cristopher Zandoná Schneider, ex-aluno da EFA, na Poesia “Beleza Esquecida”:

Vinho, sabores e aromas:

Perigosamente apaixonado e celebrando a vida na tarde lenta

De cores barrocas e quase impossíveis,

Volúpia das camadas mais fundas e esquecidas de mim,

Lembrança de um tempo ido e infinitamente simples e belo.

(A beleza e simplicidade que aos olhos passavam despercebidas e nulas).

 

(Fragmento do Poema de Cristopher, publicado originalmente pelo SESC-DF em Antologia Poética referente ao Prêmio Carlos Drummond de Andrade 2011. Poesia que integra o Livro de Poesias XI: alunos mostram o que fazem, em homenagem Póstuma).

         A escola e a família!!!! Quantas famílias, quantas destas que viveram e vivem a EFA desde a educação infantil. A experiência compartilhada pela confiança e apoio a educação que resgata o sentido do humano. A disposição para o diálogo, para a relação positiva com as diferenças, para a tolerância e para o respeito mútuo. As crianças e jovens aprendendo a serem produtores de conhecimento: criam teorias, experimentam, justificam, tentam convencer seus colegas ou são convencidos por eles, buscam novas informações e as relacionam com as que tinham antes, constroem novas teorias, e assim sucessivamente. Uma das marcas fortes da EFA é sua história franciscana, sua raiz pela arte, seu cultivo da pesquisa e da investigação, seu caráter laico de ensinar.

        A EFA vem de uma tradição de escolinha, ainda do tempo em que seu trabalho se engajava nos ideias de Augusto Rodrigues com a Escolinha de Arte da FIDENE. Quanta simplicidade, quanto espaço para correr e brincar, os peixes, a tartaruga que a vó Herta cuidava. E o cházinho então!!! Não dá pra esquecer o doce aroma do chá movido aos olhares atentos e carinhosos da vó. O Anexo, nosso espaço de tantos anos, que mesmo nas dificuldades, havia uma grande relação de afeto e apego por tudo o que representava. A praça idealizada pelo professor de Educação Física Wilton Trapp e as Festas de Jogos do professor Paulo Carlan da UNIJUI. A gigantesca Biblioteca Sonho Infantil e depois Mário Quintana. Os Salões dos Espelhos!!! As salas de estudos dos grupos!! (Rosane N. Becker)

           Dizem que o encantamento não é uma coisa que a gente busca para fazer isto ou aquilo, para chegar lá, ou ali. Que o encantamento vem com o que inspira a vida da gente. Se há inspiração no trabalho, há também na vida. Mario Quintana disse que “quem inventa fica mais perto da realidade”. E foi sábio na afirmativa. A EFA sempre se pautou por um grupo de professores ousados que gostavam e gostam de inventar. Dá muito trabalho ser professor(a) desta Escola. E é assim que o projeto vem sendo lapidado. Muitos acertos, alguns tropeços, mas muita, muita ousadia da busca de uma educação mais próxima do momento complexo em que se vive.

            O Professor Mathias Junior Ribeiro foi daqueles que começou como um oficineiro de capoeira, tornou-se coordenador do projeto na Escola e foi assim, pela conquista das crianças e jovens que adentrou o universo da sala de aula da Educação Física, trabalhando com capoeira. Como tantas boas experiências, passou. Mas, ficou o encantamento e as aprendizagens das lembranças de ambas as partes. Mathias dizia:

      Quando penso em EFA, vem um sentimento maravilhoso, não era simplesmente sair de Panambi, pegar a estrada e ir dar aula de Capoeira em Ijuí, era sim planejar com gosto uma aula diferente, uma aula criativa que motivasse os alunos, era ir cantando no ônibus uma nova melodia, era chegar e receber um abraço carinhoso dos guardas, funcionários e professores, lembro-me das crianças me olhando, e da velocidade que vinham correndo em minha direção, da amizade com os pais e familiares. Foram anos de muito aprendizado e ensinamentos, sinto-me orgulhoso de ter contribuído para com a instituição e ao mesmo tempo eternamente grato!

         O desenvolvimento de tal postura demanda grande esforço pedagógico e grande sensibilidade, assim como o estímulo permanente ao protagonismo dos estudantes, e os professores que tem aí um papel fundamental: definem o que é preciso ensinar, planejam as aulas e os projetos de modo que os alunos tomem-nas para si e não as vejam como meras tarefas a serem feitas para uma cobrança avaliativa. Os professores contribuem na formação plena das crianças e jovens, assim como são eles que têm a tarefa de conduzi-los a se organizarem para aprender, cuidam da sua aprendizagem e procuram encaminha-los para a autonomia do pensar e do agir.

          Até quem já passou pela EFA, não consegue abandoná-la. A professora Lídia Inês Allebrandt é exemplo disso.  Segundo ela, manter vínculos com a escola e seus professores, é um diálogo que a faz pensar e a desafiar.

         As professoras e as crianças colaboram no programa de Rádio, o Roda Gigante, com suas pesquisas, suas histórias e suas perguntas e eu colaboro com a escola participando de suas formações. É como nos ensina Freire quem ensina aprende e quem aprende ensina. Sou grata aos professores que integraram a EFA pelo acolhimento quando decidi ser professora e iniciava estudos acadêmicos na graduação em Letras. Sou igualmente agradecida por oportunizarem formações e experiências que possibilitaram pensar e entender a infância e a interagir com as crianças na educação Infantil. Na EFA tive espaço e tempo para propor ideias, como por exemplo: realizar feira de livros, instalar uma biblioteca e lançar a coleção de livros de poesias. Não fiz isso sozinha, fizemos no coletivo. Experiências que deixaram marcar na minha formação e até hoje contribuem para o exercício da docência no ensino superior. Obrigada, EFA, pois sinto-me novamente acolhida (Atua no DHE Departamento de Humanidades e Educação da UNIJUI, é professora do curso de Pedagogia e coordena o PIBIB- programa institucional de bolsas de Iniciação a Docência).

          EFA um projeto que tem como foco o trabalho como o conhecimento, a cooperação e a autonomia. Valores que perpassam as ações pedagógicas e educacionais, e se concretizam na rotina. O espírito coletivo facilita a gestão do cotidiano e, as normas que regulam o convívio são poucas, mas úteis, pois foram criadas visando a um ambiente adequado para a aprendizagem e a formação geral dos estudantes. Como afirma a Diretora da Escola, professora Maria do Carmo Pilissão, nos seus 50 anos de história, a EFA vai além da tarefa de cumprir seu papel de instituição educativa e formadora na sociedade. Ela ocupa o lugar, por excelência, da mediação do conhecimento sistemático e científico elaborado ao longo dos tempos pelo conjunto de sujeitos sociais, sem esquecer o sujeito primeiro que habita neste ambiente, nossa escola: a criança e o jovem. A valorização e o respeito pelo potencial humano, a individualidade e a coletividade que possibilita o diálogo diverso, que promove o planejamento participativo e que tem a pesquisa como princípio educativo. Uma escola que caminha pelo trabalho coeso e solidário com os pais, com os professores, com os funcionários, com os colaboradores. Estes são os atributos que me fazem ser diariamente desafiada e encantada por esta Escola.